segunda-feira, 8 de julho de 2013

Mais Fausto

Entrevista também encontrada no O LOBO. Dedicado à amiga Van, também aniversariante de hoje!

Eu sou meus personagens - Entrevista de Fausto Wolff

Literatura, diploma para jornalistas, televisão, Pasquim, eleições, e muito mais, na perspectiva de Fausto Wolff.

Escrito por Cristiano Ramos e Diogo Monteiro
 
Listado por uma legião de críticos como autor de um clássico contemporâneo da literatura brasileira, À Mão Esquerda, Fausto Wolff continua desconhecido do grande público. Mesmo tendo militado em jornais e revistas de destaque, como Manchete, O Cruzeiro, Pasquim e Jornal do Brasil - além de passagens pela TV e duas tentativas frustradas de se eleger deputado federal. Gaúcho de quase dois metros de altura, mas figura carimbada da boêmia carioca; fala seis línguas, roteirista e ator principal de um longa-metragem dinamarquês, tradutor de Saroyan e Cortázar; apenas a fama etílica ele faz questão de afirmar que não mais se justifica. O que deve ser verdade, já que o primeiro contato para marcar a conversa foi transferido de uma tardinha para às 7 da matina do dia seguinte, a pedido do entrevistado. De vícios, apenas o jóquei, na esperança de “levantar algum dinheiro nas patas dos cavalos!”. Atualmente, é um dos editores do Pasquim21 e está trabalhando no roteiro de um dos seus contos, A Puta, a ser dirigido por Nelson Pereira dos Santos. Espera publicar em 2004 sua obra literária de maior peso - As 1001 Noites de Fausto Wolff e um livro de poemas - Gaiteiro Velho.

Que Deus é esse tão presente nos seus escritos? Qual o espaço que Ele ocupa na vida do autor?
Deus, como se sabe, desde que o roubaram dos pobres e o trancaram nos mais diversos palácios das mais diversas religiões, tornou-se um sócio do mercado. Deus está presente em nossas vidas todos os dias - uma tradição pesada demais para ser descartada. Como a vida, para a maioria, se resume em vaidade e autopiedade, qualquer dor de dente nossa - ocasião em que apelamos para Ele - é muito mais importante do que a morte de centenas de milhares de crianças no Iraque. Jamais me preocupei muito com a existência de Deus, pois a sua existência, ou sua não-existência, não muda nada. E se Deus existe, certamente não está preocupado com meus pecadinhos. Eu talvez venha a pedir explicação dos seus pecados.

No seu livro O Nome de Deus, o narrador afirma que houve um tempo em que acreditou na viabilidade do ser humano. O autor também perdeu essa crença?
Existe uma minoria no mundo - ricos, poderosos e anônimos - e mais seus palhaços, os políticos, que lutam contra a evolução humana. Daí a vulgarização da arte, a cultura não experimentada, a alienação. Deus . sempre que ele exista - deu ao homem um jogo maravilhoso, um enigma que, se decifrado, o colocaria na categoria dos deuses que Ele mesmo inventou. Os homens, porém, em vez de aprenderem o jogo, resolveram lutar com as peças e usá-las como armas; resolveram fazer do lucro, e não da felicidade, o fim que dá significado às nossas vidas. O narrador citado foi construído psicologicamente para pensar daquela forma. Creio na viabilidade do homem desde que o poder lhe dê uma chance, mas isso terá de acontecer já, agora, antes do fim do mundo. No século 19, com H.G.Wells, Maupassant, Proust, Dostoievski, Lima Barreto (para não deixar um brasileiro de fora), Tolstoi, o homem era bem mais viável.

Num país de iletrados, a literatura é capaz de promover mudanças reais? Ou você está pregando no deserto?
Não acredito, pois as forças que lutam contra essas mudanças são muito poderosas. Por outro lado, o que sabemos de verdadeiro na História do Mundo foi contado por artistas, e não por militares. Vivemos num tempo em que tanto a religião como a imprensa tornaram-se sócias do poder, e o importante é fazer dinheiro. E para isso é preciso manter o público na ignorância. Desesperado, ele volta-se para os duendes, os diabos, o Paulo Coelho (que não tem culpa dessa idiotia), o tarot, a astrologia, o i ching. Não posso dizer que prego no deserto, pois está surgindo uma nova geração de leitores que se apercebeu da patifaria, da fraude e da mentira com que a alimentam desde o berço. Esta garotada vai ler Marx e perguntará, como uma vez Engels perguntou para a mãe, depois de passar um tempo na fábrica do pai vendo os operários, crianças inclusive, trabalharem 16 horas diárias: Não poderia ser diferente?

Não fica mais difícil a tarefa, quando se escreve para uma minoria crítica, negando-se a dar entrevistas para grandes meios? Os intelectuais do país falam para as massas ou para as elites?
Jamais pretendi conscientizar ninguém, politicamente, através da literatura. Isso eu tento fazer através do meu jornalismo que, como todos sabem, é panfletário. Realmente, como todo sujeito que bebe muito, sou tímido e não gosto de dar entrevistas mas, como escritor, não fujo da imprensa. Preciso dela para vender meus livros. A diferença entre Rubem Fonseca e eu, à parte o fato de ele escrever melhor, é que ele foge da imprensa e a imprensa foge de mim. Quanto aos intelectuais escreverem para a elite, acho muito engraçado, quando vejo atores assassinando Brecht no palco para meia dúzia de pessoas, num espetáculo patrocinado, e aparecerem ao mesmo tempo na TV, fazendo propaganda do produto de alguma transnacional. Os atores emburreceram muito da minha época para cá, mas os que mostram a carinha nas novelas e dizem “Oi, Bicho!” - estão ricos.

A geração Pasquim costuma se orgulhar de ter revolucionado a linguagem jornalística nacional. A imprensa, hoje, não sofre dos mesmos vícios de antigamente? Há um vestígio de megalomania nessas afirmações ou a maioria dos seus leitores ficou nos porões da ditadura?
Com o Pasquim ocorreu um fenômeno interessante. Em 1969, os melhores jornalistas do Brasil eram de esquerda (havia esquerda naquela época) e belos seres humanos. Nenhum deles escrevia segundo os manuais de redação que tratam leitores como zumbis. Escrevíamos como falávamos e como tínhamos o que dizer - mais coragem - o sucesso foi imediato. Os leitores do Pasquim envelheceram com a gente. Os militares ficaram 30 anos no poder, o que, com auxílio da televisão, foi suficiente para imbecilizar a maioria da nação. Natural, portanto, que os filhos dos leitores fossem alienados, mas os netos gostam da gente.

Você foi candidato duas vezes a deputado federal. Pretende voltar a disputar um cargo político?
Eu era bem mais jovem e queria palpitar na Constituinte. Deveria ter desconfiado. O Globo informou que eu seria um dos candidatos mais votados no Brasil, segundo sua pesquisa. Fiz a campanha com um automóvel emprestado, minha única faixa, paga por amigos, foi confiscada pelo TER e, como não paguei os contadores de votos, fui vergonhosamente roubado. Não tenho dúvidas de que se fosse eleito, abriria o meu caminho a tapa, na Câmara, e o Brasil não seria esta colônia descarada que é hoje. Se vocês conseguirem 50 mil dólares para santinhos, faixas, transporte - dinheiro limpo e não-lavado - eu me elejo. Vai ser bom ter um salário decente para variar. Quem sabe, consigo juntar algum e comprar um apartamentinho e um carro para minha mulher dirigir porque eu não sei.

Quando começou À Mão Esquerda, você estava decidido a escrever o melhor romance da literatura brasileira. Hoje, o que você acha do livro concluído?
Estou emocionalmente envolvido com o livro, pois, como tudo que escrevo, ele é parcialmente biográfico. Eu sou meus personagens e acredito que - em termos de literatura - ou o livro é o autor ou não vale nada. O escritor, como não pode fazer outra coisa, quer transformar o mundo. Sabe que não conseguirá; sabe que, por mais que tente, não conseguirá denunciar, em toda a sua sordidez, a realidade que insiste em encobrir a verdade. Não gosto de concursos e nem de unanimidades. Para mim, o livro é excelente. Gostei do que escrevi. Gosto do que faço e poucas pessoas podem dizer o mesmo.

À Mão Esquerda foi apontado por diversos críticos como um dos livros mais importantes de sua geração. No entanto, você continua sendo um autor pouco lido. Como é ser um clássico desconhecido?
Há toda uma política editorial de distribuição para saber quem vende e quem não vende. O meu negócio não é vender (em termos, é claro), mas ser lido. Admiro muito o Chico Buarque - acho Apesar de Você a Marselleise da resistência à ditadura militar - mas não entendo como pode vender 50 mil livros numa semana. Será que meus leitores são todos cultos e pobres? Serão verdadeiros os números das editoras? Perdoem, mas querer ser livre é poder dizer não. Não acredito, estão me “engrupindo”. E o escritor merece um respeito que a mídia não lhe dá. Quanto à pergunta “É muito triste ser um clássico desconhecido”? É, principalmente, quando falta dinheiro para pagar o aluguel.

Você iniciou no jornalismo muito cedo, aprendendo no dia-a-dia da redação. Acredita que a imprensa no Brasil melhorou, após a obrigatoriedade do diploma?
O diploma só deveria ser exigido para quem tem responsabilidades sobre a vida humana: médicos, químicos, físicos, engenheiros. O resto é ridículo. Daqui a pouco exigirão diplomas para músicos, pintores, poetas, escritores. Além do futebol e da música, o jornalismo era uma das poucas profissões acessíveis a um filho do proletariado. Se houvesse exigência de diploma, eu não poderia ser jornalista, pois só pude estudar até a segunda série ginasial. Aliás, nem eu, nem o Jaguar, o Millôr, o Paulo Francis... Hoje, qualquer idiota, que não serve para nada, se forma em jornalismo, e a imprensa é esta que vocês têm aí. Vou responder da seguinte maneira: o diploma ajuda o candidato a jornalista, mas a obrigatoriedade é ridícula e cruel, pois parte do princípio de que só é capaz quem se formou nessas máquinas de ganhar dinheiro e excluir o povo. Einstein não se formou em nada, e o inventor do alfabeto era analfabeto.

Há uma corrente de programas jornalísticos que investem na exibição hiper-realista das mazelas sociais. Trata-se de denúncia social ou exploração da miséria?
Jamais gostei do Chacrinha e nem de ninguém que vendesse ilusões. No caso do Chacrinha, o melhor dos animadores, os calouros passavam semanas inteiras ensaiando para viver o momento mais importante de suas vidas e eram gongados, ridicularizados, humilhados, como se alguém, que tivesse acesso à televisão, fosse um Deus. Esses programas nojentos, que dão possibilidade a pessoas imbecilizadas, tristes, pobres, descrentes, de anunciarem seus dramas - “Meu pai quis me comer”, ”Meu irmão é veado e feliz”, ”A amante da minha mãe é minha amiga” - demonstram apenas que o sistema depois de bestializar o povo ainda fatura em cima dele.

Qual a solução para a qualidade da programação televisiva: controle governamental, auto-censura ou a censura do controleremoto?
É difícil responder a esta pergunta porque quase todos os caciques políticos e econômicos são donos de um canal, quando não, de uma rede de televisão. Isso faz com que os grandes criminosos (os que fizeram a ditadura e mais Collor, FHC e Lula) não estejam interessados em qualquer mudança de qualidade. Se falarmos em termos de Constituição (esta colcha de remendos podres que ninguém respeita), ela impõe: a televisão é uma concessão governamental e, conseqüentemente, digo eu, uma concessão do povo. Depois de 30 anos de ditadura oficial e quase 20 anos de ditadura branca, o povo sabe o que quer ver?

Temas como violência, miséria e crueldade têm sido encampados por diversos autores. Você acha que, também na literatura, o momento atual exige esse apego à realidade?
O escritor só precisa de um lápis, ou uma caneta, ou uma máquina de escrever, ou um computador. A partir daí o mundo é dele. Se o que ele fizer humanizará as pessoas ou as tornará ainda mais imbecis, o problema nem é dele, mas do mercado que o utiliza. Joyce e Proust, na minha opinião, são os maiores escritores do século passado . Kafka entra nesta . mas se você não tiver leitores para entendê-los, alguma coisa deu errada no mundo, e não foi com eles.

Você já disse que não tinha publicado seus poemas por considerar que tinham vida própria, eram dados a um amigo ou a uma mulher. O que o fez mudar de idéia e pô-los em livro?
A insistência de amigos, a resposta positiva dos leitores - meu primeiro livro de poemas ganhou o prêmio popular da Feira de Livros de Porto Alegre - e, finalmente, o fato de haver romances de 12 mil páginas que só se podem escrever num poema de quatro linhas.

Nejar e Scliar já estão na Academia Brasileira de Letras. Como você responderia a um improvável convite para ingressar na ABL? O Rio Grande do Sul poderia contar com mais um acadêmico? Veríssimo já disse que não combina com ele...
Se ela não combina com o Veríssimo, imaginem comigo. A ABL representa todos os falsos valores burgueses, é a arte da condescendência, do paternalismo, a arte do sim. Basta ver alguns nomes que compõem aquela casa para verificar que caráter não é exatamente o que comanda suas escolhas. Mário Quintana perdeu para Eduardo Portella e depois para Niskier. Não me convidarão, e se me convidassem, eu não aceitaria.

Numa entrevista você cita, como autores contemporâneos, o Rubem Fonseca, Luiz Fernando Veríssimo, Carlos Heitor Cony, Millôr Fernandes... Não há ninguém com menos de 60 anos fazendo boa literatura no Brasil?
Vou te contar um segredo. Como comecei na imprensa aos 14 anos, menti minha idade, pois temia que me despedissem. Quando fui cobrir a guerra no Canal de Suez, tive de mentir a idade novamente. A mesma coisa ocorreu na Manchete, e posteriormente no O Cruzeiro. Aos 28 anos, no Rio, dei uma grande festa para comemorar meus 40 anos, imaginem. Por isso meus amigos são muito mais velhos do que eu e conheço pouco a literatura dos mais jovens, com algumas exceções. Meus heróis continuam sendo Millôr, Joel Silveira, Fernando Sabino, Veríssimo, Fonseca, Manoel de Barros, Moacir Werneck de Castro, Jânio de Freitas, Ferreira Gullar, Ariano Suassuna, Carlos Heitor Cony, Aldir Blanc e alguns poucos outros. Admiro, porém , alguns jovens como Luiz Horácio, Marcelo Backes, André Seffrin, Cassas, Espinheira, Sonia Rodrigues, Anna Fortuna, Oldemar Olsen, os Irmãos Caruso, Marcelo Benvenutti, o Nani, cartunista que se revelou um excelente romancista policial e muitos outros.

Esta entrevista foi publicada pela Revista Continente, de Pernambuco. Não há indicação de data, mas é de supor que tenha sido feita em 2003.

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Mais pelo Aniversário do Fausto Wolff - "Tempo Esquecido"

Texto do Fausto, originalmente publicado no JB, em 20/07/2008 e encontrado no O LOBO.
 
Tempo esquecido

Para mim, os adultos eram criaturas muito estranhas.
 
Continuam sendo, mas aprendi a usar a máscara de javali para passar despercebido entre eles. Faço isso ainda hoje. Meus mestres foram dois ingleses: Jonathan Swift e Daniel Defoe. Como nosso corpo e todo o universo, também o nosso destino é composto de átomos que vivem se chocando harmoniosamente entre eles, na maioria das vezes.
 
Quis o destino que meu pai fizesse um mau negócio e a família toda acabou no meio de um favelão em Porto Alegre. Morávamos na única casa de alvenaria da região. Muito chique, mas o banheiro, ou casinha, ficava a uns 200 metros da moradia. Depois era tudo mato. Garoto, rezava e pedia a Deus que me desse qualquer outra profissão que não a do homem do barrilzinho, ou seja, o empregado da prefeitura que vinha apanhar as excreções humanas nas "casinhas" do bairro. No quarto onde dormia com meus irmãos, encontrei dois livros esquecidos pelos antigos moradores: As viagens de Gulliver e As aventuras de Robinson Crusoé, em versão juvenil da minha querida Editora e Livraria do Globo. Praticamente decorei os dois volumes em menos de seis meses. Graças a eles, aos 7 anos de vida começava a me preparar para a grande aventura do mito que ocorre sempre que um jovem herói deixa a casa dos pais para atravessar mares, matar dragões, morrer na tentativa ou retornar vitorioso ao velho lar. Meus dois mestres ensinaram-me a reconhecer a voz do horizonte. Mentiria se não dissesse que um terceiro mestre, o meu pai, não deu seu incentivo através de esporádicas surras. Escravo, como todos os outros da sua classe, ele voltava para casa esmagado pela luta diária que insistia em manter contra uma realidade gigantescamente superior a ele e que ele não venceria nunca. Quando voltava do trabalho (era barbeiro) minha mãe informava-o das minhas molecagens – não ajudá-la no trabalho caseiro e ficar a tarde inteira lendo no mato. O velho, como o chamava, embora não tivesse 40 anos, me cobria de cintadas. A velha interferia: "Pára com isso, seu maluco! Quer matar o menino?" Ele parava e, ao fim de alguns minutos, estávamos todos abraçados, rindo e chorando ao mesmo tempo. Foi por isso que no início deste escrito confessei minha impossibilidade de entender os adultos. Com o tempo, meu pai morreu, minha mãe morreu e jamais deixei de amá-los.

Da mesma forma, jamais deixei de lutar com todas as minhas forças para escapar de casa e descobrir o mundo. Menos de um ano depois de travar conhecimento com father Swift e Mr. Defoe, meu pai fez um outro mau negócio e nos mudamos de Montserrat, que hoje é o bairro mais chique de Porto Alegre. Coisas da vida. Viajei, eventualmente aprendi. Para cada porre, um tombo. Anotados o local do tombo, a posição dos espinhos na estrada, a dimensão do vexame, continuava a aventura. Sempre em hotéis de segunda, trens de segunda, restaurantes de segunda. Eventualmente, cheguei à terça-feira, mas isso se deveu mais à piedade de algumas mulheres do que ao meu talento. Mulheres como aquela que me ajudou a fugir de Palermo, na Sicília, logo depois que participei de um comício do Partido Comunista Italiano, o que era quase pedir para ser assassinado. Estive em algumas guerras, casei algumas vezes, tive filhos e netos, escrevi milhares de artigos e duas dúzias de livros, mas nunca esmoreci da certeza de que o significado da vida está sempre um pouco além do horizonte.

Há algum tempo, aborrecido com as cruéis mesquinharias neoliberais do dia-a-dia, dei-me conta de que, como herói, era um fracasso. Não estava preparado para a morte, pois ainda não descobrira do que tratava a vida. Não queria aceitar que toda a nossa existência não passa de vaidade e autopiedade. Arranjei dinheiro emprestado – a altos juros –, peguei minha mulher pelo braços, partimos para um cruzeiro da CVC – Pulman Tours, a bordo do liner Blue Dream. Partimos para o fim do mundo, mais precisamente para a cidadezinha argentina de Ushuaia, que disputa com Punta Arenas no Chile (onde Neruda andou exilado na própria pátria) pelo título de terra povoada mais próxima do Pólo Sul. Por via das dúvidas, estivemos nas duas, para não falar de Port Stanley, capital das Malvinas. Como o capitão Ahab, de Moby Dick, de Herman Melville, eu queria descobrir com qual monstro me assemelho no ventre de uma baleia. Voltarei ao assunto.

P.S.: Talvez vocês estejam se perguntando sobre minha irresponsabilidade de pedir dinheiro emprestado apenas para saber por que existo, em vez de dar entrada em um apartamento sala-quitinete em Cordovil. Acontece que tenho 67 anos e não gostaria que a tétrica senhora me apanhasse em plena ignorância.

Fausto Wolff

JB, 20 de julho de 2008. 

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Aniversário do Fausto Wolff

Pra compartilhar e celebrar um amigo que nunca esquecerei.




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quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Sonhar é Possível - Fausto Wolff


Quatro anos da morte do Fausto e seus textos parecem ter sido escritos hoje.
Pra celebrar o mestramigo Fausto, vai mais um texto dele, copiado lá dO Lobo.

Sonhar é Possível

Um sonho. Civilizado é o país que tem um governo decente.
Por decente entendo o que trata todos, mas principalmente os desvalidos, como filhos queridos. Com o dinheiro arrecadado por meio de impostos. os proveria de teto, terra, transporte, educação e saúde preventiva. Trataria melhor ainda os deficientes, criando situações nas quais eles pudessem ser úteis à coletividade.
Nesse governo utópico, as crianças aprenderiam desde cedo o sentido de honra, caráter, e o sentimento de amor à pátria, que não teria nada a ver com o radicalismo de Chauvin. Aprenderiam a manter uma relação amistosa com seu meio ambiente particular. Numa região de rios, aprenderiam a nadar; noutra, houvesse répteis, a lidar com eles. Aprenderiam o corpo humano e os primeiros socorros. Já no curso elementar, fariam testes vocacionais para se iniciarem no ofício para o qual parecessem mais aptos. Bem cedo, também, aprenderiam o valor da capacidade de julgar para não serem induzidos a comprar porcarias que não servem para nada. Lembram-se do bambolê? Aprenderiam que devem usar o dinheiro, e não serem usados por ele; que devem usar os objetos de consumo, e não adorá-los.
O sucesso de um homem não seria pautado por sua casa, seu automóvel, sua profissão ou lugar na sociedade, mas sim pelo caráter, retidão e espírito público.
Nesse governo, caso os pais não pudessem mais sustentar os filhos acima de 18 anos e esses quisessem entrar para a universidade, após alguns testes receberiam o dinheiro necessário para passarem por ela. Uma vez formados, devolveriam, por meio de impostos, o que haviam recebido do governo.
Não haveria televisão privada e a programação da TV estadual, municipal ou federal daria ênfase ao bom entretenimento e à discussão política. O povo decidiria a programação, e não o partido que eventualmente estivesse no poder. Nenhuma profissão seria considerada menor – guarda, mensageiro, chofer de ônibus, de trem e de táxi, trocadores, lixeiros, babás, operários – pois todos passariam por elas antes de ingressarem na universidade.
Para julgar o povo é preciso sentir na carne como ele vive. Se os que ganham mais decidirem comprar produtos estrangeiros mais caros, isso não lhes seria proibido, mas, para os demais, haveria o equivalente nacional de igual qualidade.
Nessa minha sociedade, as pessoas com mais de 60 anos se aposentariam quando quisessem e haveria um imenso programa de trabalho para elas de acordo com sua capacidade. Os políticos seriam indicados aos partidos pelos moradores de cada região. Receberiam um bom salário, mas não poderiam ter outro emprego. Quem corrompesse ou se deixasse corromper iria para a cadeia e esta não seria uma vingança, representaria uma chance de o indivíduo se redimir. Cada presídio teria uma boa biblioteca e cursos técnicos. Todas as fábricas teriam creches e as maiores, praças de esportes para as crianças. As praças seriam clubes para os que não têm clubes.
Os bancos não poderiam cobrar mais que 12% de juros anuais. O cidadão que demonstrasse ter condições de pagar seu empréstimo não seria rejeitado. Os bancos teriam especialistas para ver se o dinheiro seria bem aplicado, para aconselhar quem quisesse plantar tomates num terreno propício a cenouras. Os bancos, enfim, usariam seu dinheiro para emprestar a quem precisa, e não para salvar da falência comerciantes corruptos.
As crianças aprenderiam que tudo que atenta contra a integridade da comunidade é crime. Pichar muros, roubar estátuas públicas etc. Quem danificasse a propriedade pública teria de trabalhar para recuperá-la.
Cada município colocaria na rua um número X de bicicletas facilmente reconhecíveis, pois fabricadas especialmente para isso. Essas bicicletas seriam do povo. Quem encontrasse uma desocupada subiria nela e se dirigiria ao seu destino. E a estacionaria no local indicado pelas autoridades do trânsito. Se, ao voltar, a encontrasse, continuaria com ela, caso contrário, tomaria qualquer meio de transporte público. Em cada parada de ônibus, trem ou barca, encontraria os horários e o descumprimento dos horários seria considerado transgressão legal.
As pequenas transgressões seriam julgadas por um juiz no mesmo dia. Se o réu não fosse absolvido, o juiz lhe daria um mês para que organizasse sua vida e depois se apresentasse para cumprir a pena.
Nenhuma cidade poderia ter mais de um milhão de habitantes. Famílias dedicadas ao cultivo da terra receberiam lotes do Estado e pagariam com parte da produção. Os pequenos proprietários formariam cooperativas e venderiam o produto do seu trabalho à prefeitura, que a revenderia ao mercado.
As drogas seriam legalizadas e revendidas em farmácias. Cada dependente receberia uma carteirinha que teria de apresentar. O tráfico seria banido. Na embalagem do produto, como já ocorre com os cigarros, uma bula explicaria os efeitos de cada droga.
A prostituição seria controlada e, uma vez estabelecido um quantum entre prostitutas e governo, elas pagariam imposto de renda e só poderiam exercer a profissão se tivessem outro trabalho paralelo.
Ao contrário do país e do estado, o município não é uma abstração. O governo central teria apenas função harmonizadora entre as diversas cidades. Um distrito só seria promovido a cidade se os cidadãos assim o quisessem e provassem que poderiam viver independentemente de qualquer ajuda. Os prefeitos não poderiam agir como se a cidade fosse uma propriedade sua que precisa ficar cada vez mais rica. Os prefeitos e os vereadores teriam de zelar apenas pelo bem da coletividade.
As transnacionais (sempre que delas houvesse necessidade) poderiam se instalar no país desde que cumprissem as leis locais. Quanto às estatais, poderiam ser parcialmente privadas, mas a maioria de ações seria sempre do Estado e a este caberia tutorar tudo.
Haveria um único laboratório farmacêutico estatal e apenas um produto, o mais eficiente, para cada doença. A medicina seria socializada e preventiva, mas nada impediria um médico de ter sua clínica particular.
O desemprego seria proibido, pois, se por qualquer razão um trabalhador fosse demitido, estaria sob a proteção do seu sindicato, que lhe pagaria metade do salário enquanto não encontrasse outra colocação para ele.
Ao contrário do que ocorre aqui, onde só grandes artistas recebem patrocínio particular, desde que não tenham mais de três atores no elenco, a empresa privada não teria de subvencionar nada. Teria, isso sim, de pagar seus impostos honestamente e em dia.
Uma comissão diria que tipo de arte poderia entrar no país. A arte imposta pelos meios de comunicação não teria ingresso. Haveria uma comissão para a entrada de filmes em cinemas e TV. Se fossem consideradas obras enriquecedoras do espírito humano, seriam exibidas. Se fossem porcarias que ensinam como matar, explodir, traficar, pagariam taxas bem maiores ou ficariam na fronteira. É claro que os americanos, quando fazem uma porcaria como Kill Bill, ao custo de quase US$ 1 bilhão, querem lucrar até mesmo com as crianças de Ruanda e de Bangladesh. Para que isso seja possível, é preciso que o mercado internacional se feche para os demais países. É por isso que os projetos de filmes desse meu país utópico passariam por uma comissão julgadora composta pelos diversos setores da sociedade. Caso fossem subvencionados, os produtores receberiam dinheiro para a produção e entregariam o equivalente em ingressos ao governo. Este, por sua vez, os distribuiria por 10% do preço nas fábricas, escolas e assim por diante. O mesmo aconteceria com as peças teatrais, espetáculos de ópera, balé etc.
Todo candidato a um posto eletivo deveria apresentar sua declaração de bens. Se ficasse provado que não precisava do salário não poderia se candidatar. Se, ao cumprir seu mandato, ao apresentar sua declaração de bens, o deputado, senador, vereador, tiver economizado mais do que seria humanamente possível economizar com seu salário, iria para a cadeia.
É claro que isto é uma utopia, mas outras já foram alcançadas. Caso contrário, ainda estaríamos em cima das árvores. A maioria das propostas não pode ser posta em prática imediatamente, pois precisamos reeducar o povo, devolver-lhe suas tradições e regenerar os políticos, os banqueiros, a polícia, a Justiça e a classe dominante em geral.

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domingo, 8 de julho de 2012

Aniversário do Fausto

Hoje é dia de aniversário do nascimento do mestramigo Fausto Wolff. Pra comemorar, vamos reler um de seus textos, este, publicado no Jornal do Brasil, em 04/07/2008. Tem a ver com o post anterior, sobre a medalha Tiradentes. Abraço a todos e VIVA FAUSTO WOLFF!!!

Oi! - Fausto Wolff

Não é que a Assembléia do Rio teve a extrema coragem de me conceder segunda-feira passada a Medalha Tiradentes?

Unanimidade não foi, pois tem muita gente ali que preferiria botar uma corda no meu pescoço. Fiquei emocionado e obrigado aos que votaram em mim e aos que votaram contra mim. Aparentemente a hipocrisia andou distante das reuniões.

Depois da internet tornou-se difícil a comunicação. As pessoas desaprenderam o falar. A Telemar oferecia um serviço lastimável mas o povo acabou acostumando-se à tortura. Agora, dizem-me, a Telemar foi vendida para a Oi e há três dias meu telefone não funciona. Tenho me comunicado via janela, ou seja, fico em frente à janela e vou dizendo "Oi" para as pessoas que passam. Estamos todos discretamente civilizados mas o diálogo é mais enxuto do que nas peças de Beckett.

Os nossos algozes-escravos estão se comunicando de forma bem eficiente. Aconteceu o que venho dizendo há anos: grupos ilegais (os legais já metem medo, imaginem!) de segurança estão se espalhando pela Zona Sul e logo tomarão conta do Brasil, uma vez que o Rio é o tambor da nação. Está na hora dos madamos e madames se comunicarem. Perguntarem, por exemplo: "Adianta pagar guarda-costas se os milicianos, a polícia e o tráfico pagam mais?"

Ainda no terreno da comunicação. Se você sente enjôos e não consegue vomitar sugiro que assista um capítulo de novela dessas que dão mais para o Ibope (epa!), sem esquecer a publicidade que é oleosamente nauseabunda. As novelas são muito ruins mas a propaganda que nos intervalos permanece o tempo que bem entender, é indiscutivelmente pior. Tratam os leitores como asnos e se comportam como se o país fosse dirigido por jovens adolescentes idiotas. Os velhos, coitados, aparecem em anúncios de companhias de seguro ou asilos. Aparecem como crianças oligofrênicas. jogando pique e bolinha de gude. Depois um idiota que bola um troço desses, vai para casa e escreve um poema. É de lascar! Veja um capítulo inteiro, mais anúncios, e verá que sua saliva fica mais grossa e a náusea chegará à sua garganta. Depois corra para o banheiro.

A inflação, por exemplo, tenta se comunicar conosco de todas as maneiras, principalmente, no comércio e na área de serviços. O governo, entretanto, tenta disfarça-la para passar despercebida como figurante em filme de terremoto. Chega o dia, porém, em que ela tem de botar a cabeçorra para fora e a asnática classe média desconfia que está pagando o rato. (é rato mesmo, revisor). Meu caso, o exemplo: se aumentarem meu aluguel vou morar na rua. Isso, depois de 52 anos de jornalismo honesto, jamais tendo perdido um processo. Não é bom exemplo para nenhum jovem repórter. Solicitado a falar sobre o assunto, seu Luiz disse: "Eu não sei de nada. Não sei de nada mas os culpados serão punidos rigorosamente." Logo mais, ao tomar vinho com Meirelles e Manteiga perguntará: "Me expliquem esse negócio de inflação."

Ainda no terreno da inflação: antigamente polícia só matava pobre, pois sabia que tudo daria em nada. Quando os ladrões de colarinho branco decidiram invadir descaradamente seu curral, ela acabou se associando a qualquer tipo de banditismo e a justiça. Agora não livram a cara de ninguém. Há dias, o estudante Daniel Duque, de 18 anos, foi morto a tiros pelo PM Marcus Pereira do Carmo, não muito mais velho, que era segurança do filho de uma promotora!!! O óbvio está acontecendo na cara da elite e da classe média que finge que não é com ela.. O povo quer o mínimo e a classe média reconquistar sua dignidade.

E dizer que quando seu Luiz assumiu as manchetes eram reservadas para as abobrinhas que ocorriam durante o futebol dos ministros na Granja do Torto. Agora não jogam mais ou se jogam usam moletons Super-Gigantes com o máximo de espaço. Mesmo assim não conseguem esconder a grana. Por que não depositam num banco?. Porque não têm confiança. Preferem os bancos suíços que só aceitam dinheiro rigorosamente limpo. O dos políticos em geral leva dias na lavanderia e ainda assim fica uma sujeirinha aqui e outra ali, resquícios da cueca.

PS: Já fui do ramo e sei que essa vida é duríssima. Minha solidariedade ao pescador braçal, cuja profissão começa a agonizar. O governo quer aumentar a produção em cativeiro e reduzir o preço do pescado. E o pobre do pecador? Que vá comprar sardinha no supermercado. A idéia de uma cooperativa gerada pelo governo e pelos pescadores não lhes diz nada? Falta de comunicação e excesso de ganância. Acabou, até amanhã se Deus quiser, eu volto pra te ver ó mulher!

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Fausto Wolff



Em 30/06/2008, Fausto Wolff recebeu a medalha Tiradentes da Alerj, graças ao deputado Paulo Ramos.
Veja o que saiu aqui (e aqui também):

Foram condecorados com a maior honraria concedida pelo Parlamento fluminense, a Medalha Tiradentes, os jornalistas Fausto Wolf e Argemiro Ferreira e o cineasta Silvio Tendler. Outros dois jornalistas, Villas-Bôas Corrêa e José Augusto Ribeiro, foram agraciados, respectivamente, com o Título de Benemérito do Estado do Rio e com uma moção de aplausos e louvor. A celebração foi realizada nesta segunda-feira na Assembléia Legislativa do Rio, Alerj.

"Cinco gigantes da comunicação", foi dessa forma foram apresentados os homenageados que receberam as medalhas, título e moção.

O gaúcho Fausto Wolf, de 68 anos, tem 52 de profissão, notabilizou-se como um dos editores do jornal “O Pasquim” e, hoje, assina uma coluna no “Jornal do Brasil”. Ele foi o primeiro a agradecer a honraria. “Há um ano e meio não saio de casa por conta de uma doença, mas achei que deveria vir aqui hoje não apenas para receber esta homenagem, mas para prestar uma homenagem ao Rio, à minha pátria que é Copacabana. Vim pedir um favor a esta Assembléia: salvem o Rio, que mudou vergonhosamente. Não reconheço mais este lugar”, lamentou Wolf.

Os outros homenagiados agradeceram as equipes de trabalho. Também participaram do evento o advogado Modesto da Silveira, defensor da causa de vários presos políticos; o jornalista Arthur Poerner, preso durante a ditadura e exilado na Alemanha; o ex-deputado federal Vivaldo Barbosa, e o embaixador Afonso Arinos, filho do já morto senador Afonso Arinos.




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domingo, 1 de abril de 2012

O Vietnã de Fausto Wolff

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

APEDREJE A CAIXA VOCÊ TAMBÉM!

 Eis um trecho da história de Cabelinho, um de meus heróis. A história completa está no conto "O Homem" do livro "O Nome de Deus" do grande Fausto Wolff.
"(...)
Naquela noite jantou com a mulher em silêncio, como sempre. Os filhos, como sempre, estavam na rua. Depois do jantar, foram para a sala ver o telejornal. Cabelinho vociferou:
- Mas esses canalhas não eram comunistas? Não eram contra o regime? Como, agora, enriqueceram e viraram neoliberais?
E pouco depois:
- Mas este cara é presidente da República ou líder da oposição? Nada que se passa na porra deste país é culpa dele? Mentiroso escroto!
Durante a transmissão da novela, quando ouviu uma atriz dizer “Luiz Maurício, papai descobriu que a Roberta transa com a Nina, e disse que vai deserdá-la”, começou a uivar como um lobo e em seguida pegou o aparelho de TV e jogou-o pela janela, enquanto berrava:
- Vai mentir na puta que te pariu!
A mulher dissolveu seis miligramas de Lexotan numa xícara de chá de boldo, e Cabelinho adormeceu. Mas na manhã seguinte, na hora do café, apareceu de cuecas. Ao ver que os dois filhos, um de vinte e um e o outro de vinte e quatro anos, ainda dormiam, começou a dar pontapés na porta do quarto deles:
- Levantem, seus escrotos mentirosos!
Os dois, que se limitavam a estudar na PUC, fumar maconha e usar o carro do pais, se levantaram a contragosto.
- O que é que há, velho?
- Reunião de família. Todo mundo na sala.
Mulher e filhos, em volta da mesa, Cabelinho, lágrimas escorrendo pelo rosto, perguntou:
- Quem são vocês? O que fazem aqui?
A mulher, tentando manter a calma e esconder o medo, respondeu.
- Deixa de bobagens. Sou tua mulher e eles são os teus filhos.
- Que filhos? Não conheço nenhum deles. Quando volto para casa, eles não estão, e quando saio de manhã, estão dormindo. Não conheço esses parasitas.
- Mas…
- Não tem mas nem meio mas. E quem disse que o sujeito tem de casar, ter filhos? Quem disse que a mulher tem de trabalhar e a empregada empregadar? Quem disse que tenho de ser parasitado desde os vinte anos como uma árvore que não pode se defender?
Dito isso, de cuecas como estava, foi até a porta do apartamento e depois de abri-la, ainda chorando, deu um sorriso e disse:
- Adieu!
Fechou a porta atrás de si, tomou o elevador e saiu à rua. Mal pôs os pés na calçada, o edifício onde morava desabou:
- Bem-feito!
No meio do tumulto que se seguiu, no meio dos escombros, ninguém notou aquele homem de cuecas que enchia um saco de aniagem com pedras portuguesas. Saiu andando pela Avenida Copacabana, com o saco nas costas. Como a cueca era uma sunga verde, não chamou a atenção de ninguém até passar em frente a uma agência da Caixa Econômica Federal. Aproveitou que o sinal de trânsito estava fechado, foi até o meio da rua, meteu a mão no saco e começou a jogar pedras contra o prédio, enquanto gritava:
- Mentirosos escrotos, vocês nunca emprestaram dinheiro para pobre algum construir uma casa. Trabalho há mais de 30 anos e nunca recebi um puto emprestado!
O carioca que, segundo os paulistas, acorda mais cedo para ter mais tempo para não fazer nada, aproveitou para dar vazão ao seu espírito crítico:
- É isso mesmo, Cabelinho, taca pedra!
Logo juntou-se ao homem bem-apessoado, de sunga e brilhantina no cabelo, meia dúzia de moleques que passou a apedrejar a agência bancária.
Um camburão levou-o para o distrito mais próximo. O delegado, um senhor baixinho e exceção à regra pois muito gentil, logo percebeu que Cabelinho não era um marginal comum. Mandou que o conduzissem ao seu gabinete, onde ele fez questão de ficar de pé, embora o policial lhe houvesse oferecido uma cadeira.
- O senhor é louco? Fugiu de algum hospício?
- Não sei se sou louco, mas sei que sou um homem.
- Por que jogava pedras contra a Caixa Econômica?
- Primeiro, porque era perto de casa, e segundo, porque foi o modo que encontrei para contestar a realidade mentirosa que vem tentando me afogar desde que nasci.
- E por que anda por aí de sunga?
- Porque sou um homem e quero me mostrar por inteiro. Só não ando nu em respeito às senhoras idosas. O senhor vai me prender?
- Por quê?
- Por ter feito desabar o edifício da Santa Clara, onde morava.
- Ah, foi o senhor o responsável?
- Fui, pois descobri que as estruturas familiares estavam podres e não tomei uma atitude antes.
O delegado, que já sabia ser o responsável pelo desmoronamento do edifício um deputado-engenheiro-ladrão que misturara cuspe, urina e até mesmo cascas de ovo de galinha na preparação do cimento, limitou-se a ordenar que guardassem o Cabelinho numa cela cheia de desgraçados, a maioria pretos e bêbados. Pobres, todos, naturalmente.
Ficou quieto, de pé, num canto da cela, por quase uma hora. Num determinado momento, porém, um negrão parrudo, com mais de 100 quilos, começou a bater num travesti mirradinho que se engraçara com ele. Cabelinho decidiu intervir.
- Pare de bater na moça, seu canalha!
O negrão ficou tão espantado que parou. Cabelinho foi em frente.
- Será que você não sabe, seu escroto, que o cérebro humano é o aparelho mais sofisticado do planeta? Que é capaz de fazer mais ligações num segundo do que todos os sistemas telefônicos do mundo reunidos? O cérebro humano não foi feito para levar porradas!
Mal acabou de falar, o negrão, mais conhecido como Praga de Mãe, e o travesti Charlotte Chanteclair passaram a surrar o Cabelinho - pois em briga de marido e mulher ninguém mete a colher - e só pararam quando ele desmaiou.
À tarde, depois de mandar medicá-lo, o delegado tentou descobrir sua identidade. Como se negasse a informá-la, encaminhou-o ao Hospital Pinel.
- O senhor vai ver, seu Cabelinho, que logo, logo ficará bom.
- Se ficar bom é o que suspeito que seja, prefiro continuar louco. De qualquer modo, muito obrigado, o senhor é um homem de bem.

(...)

Numa sociedade onde o salário mínimo não é suficiente para alimentar um cão por um mês, numa sociedade em que os pobres são tratados como animais e vivem em casas de cachorro, numa sociedade em que o homem é educado para a violência e estratificado na miséria, é espantoso que exista uma gente tão gentil, cortês, educada como a gente carioca. Foram três representantes dessa sociedade que encontraram Cabelinho no terreno baldio. Tantas fizeram que acabaram conseguindo uma ambulância que o levou para o Hospital Souza Aguiar, no Centro da cidade, onde deu entrada com fratura no crânio, o rosto cheio de hematomas, o braço esquerdo e duas costelas quebradas. Ficou em coma por uma semana, entre a vida e a morte. Certa manhã acordou com um braço engessado e a cabeça enfaixada.
Uma voz feminina muito bonita perguntou-lhe:
- Como o senhor está se sentindo?
Cabelinho viu o gesso no braço e passou a mão pela cabeça:
- Aparentemente, mal.
- Quem é o senhor?
Só agora começava a distinguir o rosto da moça: morena, 30 e poucos anos, bons dentes, belo sorriso, olhos brilhantes. De bem com a vida, vestia um avental branco.
- Sou um homem.
- Isso eu sei - respondeu ela sorrindo. - Como é o seu nome?
Cabelinho fez um esforço que chegou a lhe causar dor física, na tentativa de lembrar o nome. Finalmente disse:
- Cabelinho.
- O que é que o senhor faz, senhor Cabelinho?
- Sou o vingador que apedreja. Ou o Anjo Apedrejador, não estou certo.
- O senhor tem família?
- Acho que a minha família morreu quando a estrutura familiar desmoronou. Aliás, na ocasião, morreram várias famílias cujas estruturas também estavam condenadas.
- Compreendo - disse a jovem mulher que não estava compreendendo nada. - Mas me diga uma coisa, quem foi que tentou matá-lo?
- Os asseclas do presidente da República. (...)"

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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Meus Super-Heróis

Foi num 05 de setembro, que o grande Fausto, um de meus super-heróis, partiu dessa dimensão para iluminar outras plagas. Relembrando o mestre e amigo, vamos com um de seus textos publicados no JB.
Meus super-heróis
Na livraria pediram que se retirasse, pois seu cheiro de cachaça perturbava os clientes. O homem era alto, magro, cabeça enorme. Pobre, órfão de pai e mãe, criado por um tutor militarista, passou a tomar grandes porres, o que não o impedia de escrever. Escreveu, entre outras obras-primas, o primeiro romance de detetive. Ignorado no seu país, foi traduzido por Baudelaire. Aos 24 anos, casou-se com sua prima de 14, a única mulher que amou. Em 1839, já havia publicado dez livros que lhe rendiam menos do que me rendem os meus. Num cubículo da Filadélfia editou o Graham's Magazine. Ganhava US$ 800 por ano e conseguiu aumentar a tiragem da revista de cinco mil para 45 mil exemplares. Em 1842 sua mulher morreu de tuberculose. Ele desmoronou e, além de beber, passou a fumar ópio. Foi despedido. Ninguém lhe dava um emprego decente. Em 1849, em Baltimore, prometeu votar várias vezes em um mesmo candidato, caso lhe pagassem uma garrafa de uísque. Foi largado nu em uma sarjeta pedindo que lhe dessem um tiro nos miolos. Morreu dois dias depois, aos 38 anos. No seu túmulo, apenas o número 80. Trinta anos depois, já reconhecido como o melhor escritor nascido em solo americano, os cidadãos de Boston recolheram dinheiro para lhe dar uma sepultura digna onde inscreveram a frase "And the raven said never more". (1)
O homem era alto, magro, cabeça enorme, mas não era feio, como se diz hoje em dia. Usava uma barba ruiva porque quando menino uma garota lhe dissera que tinha o queixo pequeno. Nasceu na Holanda em 1853 numa família religiosa de classe média. Recebeu o nome de um irmão mais velho que morrera horas depois do parto. Todo emoção e timidez, a vida lhe doía. Aos 20 anos, todos os domingos caminhava 40km só para ver de longe uma jovem que amava. Um dia, ela lhe disse da janela que era noiva. Trabalhou numa galeria, foi professor elementar, pastor, lavrador e levou seu cristianismo ao extremo, trabalhando de sol a sol e dormindo no chão. Embora só começasse a pintar em 1881, fez 900 telas e 1.100 desenhos sem que tenha conseguido vender um em vida. Tinha crises de loucura e numa delas, em Arles, atacou Gauguin com uma navalha. Depois cortou o lóbulo da própria orelha e deu-o a uma prostituta. Foi internado na Clínica do dr. Gachet, mais louco do que ele. A polícia fechou seu ateliê a pedido de vizinhos, que o chamavam de Ruivo Maluco. Deprimido, uma noite saiu de uma estalagem e caminhou até o campo. Olhando para o céu, deu um tiro na cabeça e voltou para o bar. Bebeu até cair e foi levado para casa, onde morreu dois dias depois, em 1890, aos 37 anos. O retrato que fez do dr. Gachet, uma obra menor, foi vendido há alguns anos por US$ 84 milhões. (2)
O homem era baixo, magro, doente, mulato claro. Certa vez o gerente de uma livraria no Centro do Rio pediu firme, mas delicadamente, que se retirasse, pois seu cheiro de cachaça perturbava os clientes. Nascera no Rio em 1881, filho de um português e uma escrava. Abandonou o curso de engenharia aos 20 anos para assumir o sustento e a chefia da família, pois seu pai enlouquecera. Arranjou emprego de amanuense no Ministério da Guerra e, embora o salário lhe desse uma certa estabilidade, passou a beber dizendo-se vítima do preconceito racial, o que era verdade. É que, devido à sua educação e cultura, vivia entre brancos. Estreou em 1910 e fez um certo sucesso, mas não pessoal. Com o álcool vieram as crises de depressão que não o impediam de escrever cada vez mais e melhor. Era odiado pelos esnobes por ser anarquista e pelos militares porque, quando membro do júri, acusou um deles da morte de um estudante. Expulso da livraria, voltou para casa o grande escritor brasileiro. Lá morreu de enfarte em 1922, aos 41 anos. (3)
O homem era alto, magro, barbudo, em verdade um senhor de idade com extrema resistência ao álcool. Passou de 1914 a 1917 perambulando pelas repartições públicas de Paris, pedindo ao governo uma quantia que julgava lhe ser devida para poder se manter. Havia sido o artista mais prestigiado, premiado e querido da França e uma unanimidade mundial. No verão de 1917, aos 77 anos, pediu ao governo que lhe cedesse um quartinho, o que foi recusado. Morreu de frio num parque alguns dias depois. Todas as esculturas e estátuas que doara ao governo estavam abrigadas no calor dos museus. (4)

(1) Edgar Allan Poe; (2) Vincent Van Gogh; (3) Lima Barreto; (4) Auguste Rodin.
*Texto de Fausto Wolff, relido no resistente e necessário O LOBO.

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sábado, 30 de julho de 2011

Cenário Zero


"Caro leitor que me seguiu até aqui, estou meio de porre e são três da manhã. Tudo, em verdade, se resume no seguinte: se estás vivo, um dia, surgirá um negócio mais pra acinte. Se te oferecerem nada, pede vinte. O medo é puro enredo tecido por mãe, pai e atepassados. Quem fica deitado não cai. Sábio é aquele que conhece seu lugar; conhece a esquerda e a direita do seu andar; o norte e sul da sua própria morte; o alto condor e o baixio de mortal calor. O importante, porém para a fundamental sabedoria, é conhecer seu lugar que não permite ida, volta, fuga ou partida. Sábio é o homem que vai sem sair do lugar e o homem sábio trata a longínqua galáxia como se ela fosse seu bar".

*Essa foi a 759ª noite do livro "A Milésima Segunda Noite" do amigo Fausto Wolff.

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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Co-memoração F.W.


   Hoje, o grande Fausto Wolff completaria 70 anos de vida, caso não tivesse precisado ir se encontrar com Marx, Freud, Shakespeare e outros, que andavam entediados e sem assunto e resolveram convocar o velho Lobo pra animar aquela dimensão. Bom pra eles, ruim pra nós, que ficamos aqui com cara de bunda ante um mundo cruel e difícil de entender. Antes tínhamos diariamente o censo crítico e a argúcia do Fausto pra desafiar a imprensa sócia do poder e nos ajudar a enxergar o outro lado das notícias, mas apesar da sua sentida ausência, o exemplo e ensinamentos do velho Lobo permanecem, sua importante obra permanece. Fausto Wolff permanece. Atual e importantíssimo.
   Um abraço aos amigos, familiares e admiradores do grande Fausto. Vamos co-memorá-lo.
   A seguir, três poeminhas do livro "Cem Poemas de Amor e Uma Canção Despreocupada":

IMPRENSA
O melhor de F.W.
é o que jamais
dirão dele.

ARTE 
Este palhaço
sou eu.
Mas não foi fácil
tornar-me tão
imprestável.

AUTOSOFIA
Os cavalos não correm
pra vencer.
Correm para correr,
pois para isso
foram desenhados.
Também não vivo
para vencer.
Vivo para viver,
pois para isso
me desenhei.
*Foto encontrada aqui.

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sábado, 5 de setembro de 2009

Um ano depois

Queria escrever algo especial para meu querido amigo Fausto, mas tô à beira das lágrimas em uma lan-house. Um ano após ele ter partido para outra dimensão (já deve ter fumado um charuto com Cortázar, jogado cartas com Marx, analisado os sonhos de Freud e bebido um bom uísque com os amigos que por lá encontrou), a vida continua, o mundo continua girando e a falta de seus textos diários no Jornal do Brasil nos deixa um pouco mais burros e desamparados para entender a loucura cotidiana. Mas sua obra permanece e dela continuo tirando forças e sabedoria para continuar. Quem quiser ler homenagens e memórias sobre o grande Fausto dê uma olhada no O LOBO.

A seguir textos publicados no JB de hoje:

Um ano depois, alguns anos antes

Acaminho do Bip Bip, mistura de boteco e útero de pai (sim, a voz carinhosa do boteco tem imensas barbas brancas e chama-se Alfredinho), confiro as manchetes de primeira página na banca de jornais quase esquina com Nossa Senhora de Copacabana e penso: o que será que o Fausto Wolff pensaria, diria e escrevia em sua coluna diária no Caderno B deste Jornal do Brasil?
Penso no Fausto porque faz um ano que o mais ferrenho texto da imprensa brasileira cantou para subir (os pássaros sobem cantando, e em seu penúltimo livro, O ogro e o passarinho, ele poemou sobre as paixões mais difíceis). Porque o Bip Bip é o bar onde algumas vezes bebemos, numas nos entendemos e noutras nos desentendemos, ferrenhamente.
As manchetes – que só serviriam para futucar ainda mais a indignação gaúcha e quase de berço do Faustino – versam (no mau sentido!) sobre maracutaias palacianas, compadrios de Senado, concertos desafinados de Câmara, injustiças do Judiciário e a pasmaceira que transforma imbecis de latas em ídolos de barro. Aí penso também no Aldir, amigo querido do velho lobo de todas as horas, sobretudo das últimas, e cantarolo, com os meus botões: “Todo mundo afana, da gangue do Escadinha ao seu Bacana/ Mas a Falange Vermelha, ao menos governa em cana”.
Penso no Fausto Wolff porque do dia em que ele pôs o ponto final em seu último artigo, aos dias de hoje, nada mudou; e o que mudou foi para pior. Penso no Fausto porque, depois de ver o Sarney na TV, choramingando o afeto de avô com a caneta alheia, fico esperando as reações mais violentas das penas dos coleguinhas e não sinto a fúria. Aí, sinto pena. Aí, penso novamente no Fausto e nesses 365 dias sem a sua verve vermelha de ódio.
E também penso no Fausto de antes, de muito antes. Do Pasquim, da Bundas e do Pasquim 21. Nas duas últimas publicações, estivemos juntos.
No Jornal do Brasil também (eu editava o Caderno B quando o indomável Wolffenbufftel começou a publicar em suas páginas).
Mais se desentendendo do que se entendendo, mas jamais deixando faltar o respeito nem a admiração.
Já perdemos o Fausto; cuidemos para não perder a ternura, nem a vergonha.
*Texto de Luís Pimentel, jornalista e escritor, no JB de 05/09/2009.
Carta para mein lieb, lá no além
Fausto, mein lieb wolffenbitle, parece que não mas já faz um ano que nos deixaste para observar tudo aí de cima, sem a urgência dos fechamentos e deadlines...
Que ironia, pois foi noutro dia que voce me cobrou pelo desenho que não eternizei na parede da sua casa, aquela parede branca que nos contemplava como um templo impróprio do nosso tempo que passava...
Meu consolo (epa!) é que daí você pode ver tudo melhor, sem pressa de julgar, já sabendo a priori dos desenvolvimentos absolutamente previsíveis de tudo o que estava por vir; o pit-bull de batom sendo sodomizado pelo vira-latas do Obama, o Zé Ribamar do Sir Ney singrando rio acima até o coração do Luiz Inácio, a Carla Bruni, la femme de la patrie do Sarkozy, essas coisas todas. Ignóbeis, como estes dias que correm.
Mas é bom que você saiba, ainda hoje procuro você no jornal. Eu e mais um séquito de adoradores que, assim como eu, sabem que, por mais distante que estejas da estante, reinas soberano sobre nós e por sobre todos os desvalidos que, como você, foram chamados pra cima mais cedo.
Pela inconsequência de nossos atos e de alguns bem mais poderosos do que nosotros, incluindo Hugo Chaves y sus Correas sin Morales.
A Mônica, querida, está se refazendo, meu irmão virando rei da noite com o Cabaré Caruso e eu sigo o baile.
O Jaguar vez em quando chama um Underberg pra celebrar e o Ziraldo lança mais um livro, um filme ou o que quer que seja, enquanto espera a hora pra te encontrar e fazer as pazes.
Como diria o triste bluesman Cassiano, naquela balada triste, “...mais um ano se passou, e nem sequer ouvi falar seu nome...” Um beijo nessa vasta bochecha.
*Texto do cartunista Paulo Caruso, no JB de 05/09/2009.
-Vejam o Desenho do adeus, feito ano passado, também por Paulo Caruso.


Saudade Faustão, tá fazendo muita falta aqui...

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quarta-feira, 8 de julho de 2009

08/07/1940

Em 08/07/1940 nascia Faustin von Wolffenbüttel, nosso caro Fausto Wolff.
Para amenizar a saudade hoje, vejamos uma entrevista com ele:



E tem também uma animação com participação do Fausto, feita pelo Allan Sieber, quem quiser assistir, basta ir ao site do Allan e clicar no cartaz do Santa de Casa, à direita.

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quarta-feira, 13 de maio de 2009

Uma boa dose de Wolffenbüttel

É, Vendell, mano véi, vamos tomar uma dose de Wolffenbüttel e continuar esse papo:
.
(...)e os patrões diziam todo dia: "O senhor precisa trabalhar mais. A maioria das coisas que escreve não é aproveitada. Não precisa se explicar, já sabemos. Vai dizer que não faz outra coisa que não seja escrever. Não queremos saber de nada, não queremos saber de nada, não queremos saber de nada." E a arte do afastamento vivencial continuava em casa: "O quilo de carne está custando tanto, o leite em pó está muito caro. Quando o bebê nascer não poderemos continuar misturando água com leite."
Os meses passavam rapidamente. Tão rapidamente como o dinheiro que saía do meu bolso para os bolsos de açougueiros, médicos, quitandeiros, padeiros, dentistas, cobradores. Os cobradores, de um modo geral, eram de livros. E era tão fácil vender-me livros. Diziam que era fácil pagar. E eu acreditava. Dinheiro.
Às vezes chegava em casa tarde da noite e encontrava a minha mulherzinha dormindo. Uma criança de menos de vnte anos, lindas pernas, lindo busto, querendo apenas aprender a arte de viver mais simplesmente; não querendo atacar convenções mas aceitando verdades absolutas que ainda não haviam começado a esquartejá-la. Eu tirava meu terno suado e tentava me lavar, mas faltava água. Em silêncio, para não acordá-la, deitava-me na cama. Ela precisava de tanto amor e carinho mas estaria eu em condições de dar-lhe esse amor e esse carinho? Também era uma criança tentando jogar fora de casa um jogo muito perigoso. E era eu que ela pretendia ter como professor de vida! Como ousar beijá-la se durante todo o dia eu nada mais fizera senão fracassar? Como ousar ter desejo, sentir o sexo, com tanta culpa? Medo de tocá-la, medo de não poder amá-la e, ainda assim, amando-a com toda intensidade. Como explicar-lhe a minha falta de condições para o jogo do dinheiro que é o jogo da vida? Naquele silêncio, feito de calor, suor e noite, eu sentia intensamente a ausência de Deus e sofria com sua ausência, pois toda a responsabilidade do que ocorreria daquele momento em diante era minha. E faltava-me força para suportar o peso da minha ignorância. Chorar também não podia, pois ela acabaria acordando e como explicar as minhas lágrimas se elas existiam independentes da minha vontade? Como dizer-lhe: "Meu amor, a culpa é desses filhosdasputas que tiveram a sorte de nascer filhosdasputas; que tiveram a sorte de nascer acreditando que o mundo é assim mesmo. Dinheiro, meu amor é a palavra de ordem, é o único deus, cruel, escatológico, o GRANDE DEUS GRANA. Para não chorar é preciso ajoelhar-se aos seus pés. É por falta de dinheiro que estou brocha esta noite."
Também não podia dizer-lhe isto, pois ouviria a sua verdade adolescente e justa:
—Mas, meu amor, você não pode brigar com todos. O dinheiro não faz mal algum. Papai trabalha, todos trabalham.
Eu dei o azar, esta é que é a verdade e digo isso consciente do uísque no bucho, de, apesar da pressão emocional dos adultos, crescer me interrogando. Descobri que o que é bom para a autoridade transcendental, seja ela pai, mãe, professor, polícia ou patrão, não é bom pra mim. Não me deixaram ser um cachorro. Alguma autoridade transcendental que dorme dentro de mim não me deixou ser um cachorro e eu queria tanto ser um, um bom cachorro, um cachorro elegante, um cachorro fudedor, um cachorro gigolô, um cachorro de automóvel com algumas viagens a Paris e a Nova York, um cachorro bom para a autoridade, pois que serve à autoridade. Mas eu mordo, sou um mau cachorro e não tenho talento para pedir desculpas. Se o bom Deus existe, certamente, me faltou quando lhe pedi que me transformasse num cachorro como os outros. Se o bom Deus existe, me condenou à humanidade.
.
Trecho do clássico À Mão Esquerda do mestre Fausto Wolff.

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terça-feira, 11 de novembro de 2008

Poeminha do mestre Fausto Wolff

Eis um poeminha do mestre Fausto Wolff, do livro "O Pacto de Wolffenbüttel e a Recriação do Homem".

PLANALTO

Se todos disséssemos "não"
E agüentássemos as conseqüências,
Os ratos teriam de se devorar entre eles.
Teriam de roubar uns dos outros,
Sodomizar os próprios filhos,
Prostituir suas esposas e crianças.
Talvez, depois disso, pudéssemos
Todos cantar novamente,
Orgulhosos, o Hino Nacional.


É... saudade grande do grande Fausto...

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