sábado, 21 de fevereiro de 2009

Entrevista com Hilda Hilst

Trecho de entrevista com Hilda Hilst publicada pela revista Cult em julho de 1998.

CULT Como foi a experiência de escrever crônicas, falar do dia-a-dia, você que é uma autora preocupada com a noção de Deus e a idéia da morte? Foi muito diferente de escrever ficção e poesia?

Hilda Hilst Foi muito diferente. Eu até aproveitei para divulgar o meu trabalho, voltar aos meus textos. É uma necessidade que eu tenho. Quando eu estava de saco bem cheio, não tinha nada para falar, aí eu punha trechos dos meus textos. E também faz muito tempo que eu estou dura. Mas aí teve um ano que eu fiquei sem dinheiro mesmo. As pessoas não me compram, não compram os meus livros, é dificílimo. Agora parece que está mudando um pouco. Quando você está quase morrendo, parece que dá vontade nas pessoas de te conhecerem. Mas acho que eu ainda não estou suficientemente velha. Nas crônicas às vezes dava para falar do dia-a-dia. Eu gosto especialmente das crônicas mais engraçadas, como a do E.G.E. (Esquadrão Geriátrico de Extermínio), em que eu proponho que as velhinhas (eu incluída) besuntem as pontas de suas bengalas com curare e saiam por aí espetando os políticos. Tem outra deslumbrante em que eu começo falando do Camus e, de repente, baixa o doutor Fritz e eu começo a falar com aquele sotaque alemão. Como em outra sobre a minha dívida de IPTU: "Venho atrravés de meu aparrelho, senhorra Hilst, que está adorrmecida em posizon de lótus, mas psicogrrafando meu mensagem, deizerr-lhes que o aparrelho prrecisa de dinheirras parra pagarr imposto PETÚ." (risos) É engraçadíssimo.

CULT Na crônica Receitas anti-tédio carnavalesco você recomenda um ritual que culmina com um tiro na cabeça. No seu livro Estar sendo - Ter sido também há muitas receitas de suicídio. Você já pensou em se matar?

H.H. Era uma brincadeira que eu fazia comigo mesma: "Será que não é bom a gente pegar aquele revólver, comprar um 9 mm?" - eu fiquei entendendo dessas coisas, 9 mm e tal. Mas me vinha uma coisa desagradável. Eu tenho muito medo de me assustar. Há também uma receita para isso de se assustar: é só fechar um olho. Quando for se matar, fecha um olho que aí você não fica tão mal, não se assusta tanto. Mas depois de um tempo aconteceram comigo coisas notáveis em matéria de mediunidade, que nem adianta contar porque as pessoas acham que eu sou uma louca. Então desisti, percebi que era uma fantasia minha esse negócio de me matar. Mas continuei interessada no assunto. Procurei por muito tempo esse livro, Suicídio: modo de usar [de Claude Guillon e Yves de Boniée], de onde eu tirei aquelas receitas. Às vezes a pessoa quer se matar em casa e não dá certo. Fica todo mundo batendo na porta, ou arrebentam a porta e tal. Então nesse livro eles ensinam muitas maneiras de se matar. Você pode tomar alguma coisa de efeito retardado, tipo Vesperax, que demora 48 horas, ir para um hotel e pôr aqueles avisos de Do not disturb em todas as línguas. Com esses remédios de efeito retardado, a pessoa dorme magnificamente e morre.

CULT A morte é um tema recorrente dos seus textos.

H.H. Eu tenho um cagaço tenebroso da morte. As pessoas dizem, "nossa, você que fala tanto da morte, tá assim cagada de medo..." É que eu tenho medo do sofrimento. Eu sempre pedi que eu ficasse obscura contanto que não sofresse. E olha que o lá de cima, esse Deus, que eu não conheço, ele cumpriu, não deixou que eu sofresse.

CULT Você nomeia Deus de muitas maneiras: "Grande coisa obscura", "Cara cavada", "Máscara do nojo", "Cão de pedra", "Superfície de gelo ancorada no riso". Sua concepção de Deus se aproxima da do poeta alemão Rainer Maria Rilke, do Deus imanente a todas as coisas, do "Deus coisificado"?

H.H. Não é bem isso. O meu Deus não é material. Deus eu não conheço. Não conheço esse senhor. Eu sempre dizia que Ele estava até no escarro, no mijo, não que Ele fosse esse escarro e esse mijo. Há uma coisa obscura e medonha nele, que me dá pavor. Ele é uma coisa. Se bem que depois que eu li Heidegger, e releio sempre, não consigo mais falar "coisa". Heidegger escreveu um livro enorme só para falar o que é uma coisa. Mas esse tipo de conversa você não pode pôr na revista. As pessoas ouvem falar em Deus e se chateiam. Tem que falar de coisas normais. Só quando o Paulo Coelho fala em Deus é que as pessoas escutam.

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3 Comentários:

Anonymous Anônimo disse...

Olá Wilson. Me chamo Mariana e estudo Hilda Hilst na minha graduação. Gostaria de saber se vc tem essa entrevista na publicação original. Se tiver, poderia me enviar? Preciso dos originais no meu estudo, mas não teria problema nenhum em citar seu blog.
Pode me dizer seu email?

Desde já, obrigada.

3 de maio de 2012 22:00  
Blogger Wilson Ossoguju disse...

Olá, Mariana, posso lhe enviar a entrevista completa sim. Você não deixou seu e-mail, então, peço que entre em contato comigo pelo e-mail "joplinson@hotmail.com", ok? Até mais.

4 de maio de 2012 20:03  
Blogger Mariana Lira disse...

Olá, mais uma vez!
Esqueci, realmente, de deixar meu e-mail. Mas agora tenho essa entrevista completa, porque ela foi publicada no livro "Fico besta quando me entendem - entrevistas com Hilda Hilst", organizado por Cristiano Diniz. Mas revisitando os links de entrevistas que tinha separado anteriormente para escrever meu trabalho, encontrei novamente o teu blog, e me deparei com a minha pergunta -- que já até havia esquecido. Agradeço, novamente, pela atenção. Te enviarei um e-mail.
Mariana Lira.

21 de agosto de 2013 01:34  

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