domingo, 5 de abril de 2009

"O papel do escritor é o A4"

Tenho lido muito o sr. Evandro Affonso Ferreira, grande escritor. Nesse fim de semana li o seu 4° livro, chamado Zaratempô. Mais autobiográfico (será? eh, não conheço a biografia dele para afirmar...), com vários questionamentos da própria escrita, há contos e microcontos e comentários do próprio autor se gostou ou não, trechos de comentários do amigo-crítico-"desde-sempre-guru" Alcir Pécora, projetos de novos livros (inclusive o início de seu livro seguinte, ali apresentado ainda como exercício literário, Catrâmbias), há, ainda, quase na íntegra uma crítica feita quando do lançamento de Erefuê, seu 3° livro ("texto-consciencioso-espinafroso", que o deixou "zuruó-zoropitó"). Quase um ensaio, ou quase um "diário", fragmentado/multifacetado, mas com um fio narrativo pra história: uma conversa com a irmã recém-falecida ("Rachel lesse isso diria que você eh-he virou de repente psicógrafo às avessas").
Para apresentá-lo melhor, eis alguns contos de seu 1° livro, Grogotó! E confiram também a entrevista no site Mal de Montano, de onde foram tirados os seguintes trechos:
Entrevistadora: Grogotó tem minicontos lapidares. Como chegar na justa medida, introduzida em nossa língua portuguesa por Sá de Miranda, o filho do cônego, sobretudo para você, a quem disseram que o fluxo pinga à joyce?
Evandro Affonso Ferreira: Grogotó! foi minha primeira experiência literária; comecei pensando assim: vou criar minicontos como se fosse possível criar minimiss: minúscula sim mas com cara de miss corpo de miss sorriso de miss cousalousa; fiz-refiz uns duzentos minicontos até chegar nele Grogotó!; acho que com o tempo fui me aperfeiçoando na digamos surpreendência; consegui achar um jeitinho de surpreender o leitor no final de cada história.
(...)
Entrevistadora: "O papel do escritor é o A4". A platéia rola de rir com suas participações em debates literários. Antes de Grogotó, você trabalhava com humor e, pessoalmente, tem senso afiado, vira todas as coisas de ponta-cabeça. Como o humor cabe hoje na sua literatura?
Evandro Affonso Ferreira: Humor cabe-caberá sempre em qualquer lugar; nela minha literatura acho indispensável porque diacho tragédias a flux eh-eh vez em quando precisa dum chiste qualquer; nosso Machado fazia muito isso: mais fácil cair das nuvens do que do terceiro andar.
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Grogotó!
Trinta e cinco anos fazendo roupas de talhe masculino, eah, trezentos e cinquenta ternos talvez, tesourei um sem-fim de casimiras linhos que tais, vida toda quase, debruçado sobre aquela Singer velha de guerra, infarto maldito me trouxe de repente pra esta UTI, destino fez chanfreta comigo, gostaria tanto de fazer o meu próprio jaquetão de oito botões pra chegar vistoso que só vendo diante do criador do Univer...
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Arre Lá!
Está bem, minha velha, está bem, entendi... vidinha besta, esta, casal gemebundo terminar vida perrengue numa cama... está bem, minha velha, está bem, vou rezar pra você ir primeiro, entendi... pobrezinha não agüenta mais o futum dos meus puns.
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Taedium Vitae
Desempregado, time caiu pra terceira divisão, artrite cada vez pior, senhorio no encalço, dor intermitente no peito, geladeira vazia, mulher com caroço esquisito no seio esquerdo, filho drogado, xi, mais esta, válvula da descarga quebrou.

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